Já
era madrugada quando eu terminei a última atividade do escritório. Embora
cansado, com os olhos avermelhados e com o corpo doído, iria para casa a pé,
como fazia todas as noites, pois a distância entre a minha residência o meu
local de trabalho era de apenas alguns quarteirões.
Durante
o caminho, senti repentinamente um vento forte e frio, que trazia um cheiro
diferente e jamais experimentado, vindo da única igreja da cidade.
Passava
da meia-noite e as ruas estavam desertas. Apenas morcegos me faziam companhia,
sobrevoando a torre da igreja, para onde me dirigi movido pela curiosidade de
saber de onde emanava aquele odor fétido de cadáver putrefeito.
Apesar
de preservar sua aparência original, logo percebi que se tratava de uma igreja
abandonada, com pinturas velhas e sem vida, que decoravam o ambiente destinado
às missas. As portas já haviam sido parcialmente devoradas por cupins e uma
enorme cruz de madeira já estava quase caindo do topo da torre, sendo
sustentada por um sino velho e enferrujado que há anos não se movia.
Neste
momento lembrei-me de que fazia muito tempo que não assistia a uma missa. Na
verdade nunca fui a uma celebração com o novo padre, talvez movido pelos
comentários de que, com a chegada dele à cidade, o fluxo de fiéis diminuíra
drasticamente.
Ainda
curioso, cheguei à frente da igreja e, repentinamente, senti um vulto passar do
meu lado esquerdo, neste instante percebi que algo estranho havia naquele
ambiente, pois um desejo de morte, que fez tremular minhas pernas e suar minhas
mãos tomou conta do meu corpo, mas logo desapareceu, tão rápido quanto a
passagem do ser misterioso.
Desesperado
e desprotegido, perguntei em voz alta quem estava naquele local, quando percebi
que, mergulhado na escuridão, havia algo que parecia uma pessoa encapuzada, com
uma longa bata preta de padre, um manto escuro sobre os ombros e no pescoço
carregava uma cruz brilhante. Não pude contemplar seu rosto, pois estava oculto
na escuridão.
Diante
daquela figura enigmática recuei, momento em que vi que o padre rapidamente foi
em direção ao cemitério que ficava vizinho à igreja. Sentindo um frio na
espinha, dirigi-me à necrópole, percebendo que além dos morcegos, corvos
barulhentos voavam em círculos sobre minha cabeça, como se quisessem me avisar
alguma coisa, ou me dizer que algo de terrível estava para acontecer. Era como
se me mandassem ir embora dali.
Ao
chegar à porta do cemitério, um vento rasteiro vindo de um dos túmulos me
trouxe novamente a sensação estranha que há pouco havia experimentado. Uma
placa quase solta e fixada no enorme portão já enferrujado indicava o nome do
lugar “Cemitério Cavalo Negro”, construído no período em que uma guerra civil
assolou a cidade.
O
lugar era triste e mórbido, repleto de túmulos os mais diversos, onde ricos e
pobres eram sepultados. Alguns jazigos chamavam a atenção pela beleza.
Os
corvos aumentaram de número e estavam realmente me observando a cada passo que
eu avançava. De repente, ao longe vi uma fumaça branca no interior do cemitério
e logo tratei de conferir do que se tratava. Percebi que a fumaça vinha de um
tumulo existente no subsolo, cujo acesso se dava por uma escada protegida por
um portão sem cadeado. Resolvi entrar para me certificar da origem daquela
fumaça estranha quando fui atacado por um bando de corvos, que pareciam querer
me impedir de descer para aquele local escuro e mal cheiroso.
Tudo
de repente ficou escuro e desmaiei. Não sei por quanto tempo fiquei desacordado,
mas finalmente fui despertado por meu irmão e sócio do escritório, que de
alguma forma me encontrou no subsolo daquele antigo cemitério.
A
exaustão a que meu corpo e minha mente haviam sido submetidos não me permitiu
pronunciar uma única palavra com ele e calado fui levado para casa. Os
primeiros raios solares já despontavam no horizonte quanto finalmente cheguei a
casa e com uma mistura de realidade e ilusão, literalmente apaguei.
Pesadelos
horríveis com o padre da cidade me fizeram acordar aos gritos. Coração
acelerado, pupilas dilatadas, mãos e pés suados misturavam-se com meu desespero
diante de tanto sofrimento que mais parecia uma maldição repentina. Meu irmão,
que já se preparava para ir trabalhar, veio rapidamente ao meu encontro, pedindo
para que eu me acalmasse e que descansasse o resto do dia, pois ele resolveria eventuais
pendências no escritório.
Sozinho,
em casa, resolvi tomar um banho, mas a água que caia do chuveiro parecia pedras
que despencavam sobre minha cabeça. Meu corpo inteiro doía. Depois, vesti uma
roupa mais leve e segui para a cozinha e fui tomar café. Em seguida resolvi ler
o jornal na varanda da casa. Na capa do matutino uma matéria me chamou a
atenção. Falava de assassinatos misteriosos de várias pessoas e que os crimes
geralmente aconteciam na madrugada, quando a cidade dormia.
Mal
terminei de ler a matéria, um corvo de olhos vermelhos posou em meu colo, o que
fez meu coração disparar de forma frenética, trazendo-me a lembrança da
madrugada anterior, quando centenas dessas aves, enlouquecidas, voaram em minha
direção no momento em que eu estava à porta do cemitério. Em um movimento
brusco com a mão direita, fiz o corvo ir embora e saiu voando em direção à
igreja.
Como
o sol estava brilhante e fazia um calor agradável, além de estar toda a cidade
na sua rotina normal para um dia de semana, resolvi caminhar um pouco para
descontrair e, talvez, esquecer tudo o que havia passado nas últimas horas.
Comprei
algo para ir degustando ao longo do percurso e fui até à praça da igreja, onde
fiquei observando o velho sino. Ao olhar com mais atenção, percebi novamente a
presença do padre misterioso, que me fitava a distância. Tentei, em vão, ver
seu rosto. Sua fisionomia estava sempre oculta. Neste instante, sem que eu
percebesse, um corvo surgiu de repente e feriu minha mão com seu bico, provocando
uma dor insuportável, o suficiente para que eu perdesse a atenção no padre e, enquanto
eu olhei para minha mão ferida, ele simplesmente desapareceu.
Resolvi
me aproximar da igreja e, através de uma fresta, passei a observar o interior do
local. Percebi a pouca luminosidade, vindo de alguns candelabros. O teto em
péssimas condições servia de morada de morcegos e aranhas, as estátuas ali
existentes, espalhadas sobre pedestais desalinhados, estavam cobertas por panos
escuros e até mesmo a enorme cruz de madeira, instalada no centro do altar,
parecia despencar a qualquer momento.
No
altar vi o padre, de costas para mim, não notou minha presença e ali eu fiquei
por alguns minutos lhe observando. A dor na minha mão, em face do ferimento
provocado pelo corvo, começou a aumentar, mas esse incômodo se tornou pequeno
diante de uma sensação ruim que tomou conta do meu corpo e da minha alma
repentinamente. Comecei a ficar tonto e para não cair me apoiei na porta da
igreja, já pelo lado de dentro, provocando um rangido sinistro, suficiente para
chamar a atenção do padre, que agora vinha em minha direção, trazendo nas mãos
uma cruz que, misteriosamente, se transformava aos poucos em um punhal dourado.
Tentei
me afastar, mas minhas pernas pareciam congeladas. O padre chegou bem próximo
de mim e levantou o braço com o punhal, fazendo um movimento rápido de descida,
momento em que senti que alguém me tocou o ombro. Olhei rapidamente para trás e
constatei que era meu irmão que havia retornado do trabalho para almoçar. Sem
raciocinar voltei meus olhos para o frente e, para minha surpresa, o padre
novamente tinha desaparecido em questão de segundos.
Seguimos
para casa e no caminho resolvi contar tudo o que estava acontecendo para meu
irmão, entretanto, ele tentou me convencer de que tudo era coisa da minha
imaginação e que talvez fosse estresse devido a grande quantidade de trabalho
no escritório.
Depois
do almoço, fui à biblioteca local. Iria fazer uma pesquisa detalhada sobre a
origem daquela cidade, daquela igreja e daquele horrível cemitério. Entre as
prateleiras empoeiradas, encontrei alguns livros antigos onde, em um deles,
vislumbrei algo que me deixou surpreso: uma fotografia do misterioso padre. Na
verdade ele não era novato na cidade. Teria feito quatro anos de seminário e há
um assumido a direção da igreja. A vestimenta que usava não deixava qualquer
dúvida; era a mesma com a qual se apresentou para mim nas duas oportunidades. Um
texto em letras miúdas informava que o padre era órfão desde pequeno e cresceu
em um orfanato, sendo portador de pequenos distúrbios mental.
Fui
até o escritório e novamente tentei narrar os fatos para meu irmão, entretanto,
mais uma vez fui orientado para esquecer os fatos, pois, segundo ele, nada
daquilo existia de fato. Neste momento percebi que meu irmão aparentava um
nervosismo indescritível, como se soubesse algo a respeito do padre. O
comportamento dele me deixou intrigado.
Já
em casa, vi quando meu irmão chegou para jantar. Olhando-me de soslaio, não
demorou muito e foi dormir. No meu quarto, não consegui sequer fechar os olhos,
pois as imagens da igreja, dos corvos, do cemitério e do padre surgiam na minha
frente de uma forma bastante real.
Sem
sono, fui até o porão e peguei uma lanterna. Estava decidido a ir até a igreja
para esclarecer de uma vez todo esse mistério. O relógio soou meia-noite quando
eu cheguei ao meu destino. Nuvens carregadas e raios que iluminavam a rua
anunciavam a chegada de uma tempestade em breve. Abri a pesada porta da igreja
e constatei que todos os candelabros estavam apagados. Somente o feixe de minha
lanterna me permitia ver o que estava a dois metros a minha frente. Não
encontrei o padre.
Atravessei
todo o prédio e saí pelos fundos, desta forma chegando ao cemitério. Não fosse
o uivo do vento se chocando contra um túmulo danificado, o silêncio era total.
Nada de corvos, nada de morcegos. Nada de padre.
Finalmente
alcancei a entrada do subsolo onde havia visto, na noite anterior, os túmulos
escondidos. Neste momento os relâmpagos iluminavam o cemitério, ao mesmo tempo
em que uma tempestade começou a cair e o barulho estarrecedor dos trovões
deixava-me apreensivo.
Desci
vagarosamente para o porão, onde vi algo assustador: uma mão, ainda suja de
sangue, saía de um dos túmulos, afastando gradativamente a tampa do jazigo
enquanto um cheiro de cadáver em decomposição tomava todo o ambiente. Neste
momento eu só pensava em sair daquele local, subindo as escadas numa carreira
frenética.
As
ruas estavam tão escuras que minha lanterna não me ajudava. Os constantes
relâmpagos iluminavam momentaneamente o meu percurso foi quando, bem na minha
frente, surgiu o padre com sua vestimenta misteriosa. Roupas pretas, rosto
indefinido e oculto pela escuridão da madrugada. Um relâmpago mais demorado me
fez perceber o gume afiado do punhal que ele trazia na mão direita. Ele me
fitava com um olhar gelado.
Iniciei
uma correria em direção a minha casa. Uma dor insuportável na mão e o padre já
no meu encalço. Quanto mais eu corria, mais parecia não sair do lugar. Quando
alcancei o jardim da minha residência, senti algo sendo cravado nas minhas
costas. No mesmo instante a dor que eu sentia na mão foi embora. Uma dormência
inexplicável tomou conta de mim. Caí quase inconsciente no gramado.
Minha
vista estava quase escurecendo quando percebi que o padre preparava uma nova
investida contra mim. Eu não suportaria uma segunda lesão e, num gesto de puro
reflexo, empurrei o padre com uma das pernas e novamente saí correndo, desta
forma conseguindo entrar em casa.
Perdendo
muito sangue e já fragilizado, observei pela janela que o padre ainda estava no
jardim e exatamente naquele momento quebrou o vidro da porta e entrou na casa.
Os trovões, os relâmpagos e a chuva eram as únicas testemunhas do meu
sofrimento.
Antes
que eu tentasse me esconder, fui surpreendido com uma forte pancada na cabeça e
nesse momento perdi os sentidos. Tudo ficou escuro de repente e eu desmaiei.
Acordei
em um lugar escuro e sem qualquer ventilação, com um odor de carne putrefeita.
Lancei mão da minha lanterna e pude constatar mais uma cena macabra ao meu
redor. Vários corpos, nos mais diversos estágios de decomposição se amontoavam
próximo de mim. Logo entendi que o padre era um colecionador de cadáveres e
ossos humanos. Percebi que precisava sair dali o mais rápido possível e logo
comecei a avançar em um túnel, mesmo sem saber onde iria parar.
Embora
não pudesse ver com clareza, senti que alguém vinha atrás de mim. Acelerei os
passos, entretanto, ao olhar para trás, lá estava novamente o padre e o seu
afiadíssimo punhal. Ele fez penetrar o instrumento na minha perna direita e uma
dor muito forte tomou conta do meu corpo. Gritei o mais alto que pude na
esperança de que alguém me socorresse. Num ato de defesa, consegui chutar o
padre à altura do rosto, com uma força suficiente para fazê-lo desmaiar,
momento em que seu capuz caiu e sua fisionomia foi revelada.
Maior
foi minha surpresa ao contemplar seu rosto. Várias cicatrizes provocadas por
instrumento cortante lhe tomavam as duas faces. Na testa, uma cruz invertida,
associada ao satanismo, deixava-o ainda mais tenebroso.
Continuei
em fuga e finalmente cheguei à saída do túnel, bloqueando-a com um dos bancos
da igreja, que àquelas alturas começava a desmoronar pela força da chuva. Tudo
estava mergulhado nas trevas, o telhado já não existia e os pingos fortes da
tempestade molhavam toda a igreja. Os relâmpagos iluminavam o lugar.
Repentinamente,
alguém bate na porta e grita meu nome. Imediatamente reconheci, pelo timbre, a
voz do meu irmão. A muito custo alcancei a porta e falei que estava ferido. Ele
arrombou uma pequena janela para me resgatar quando, de repente, atrás dele surgiu
o padre com uma barra de ferro prestes a acertá-lo. Gritei desesperado para
avisá-lo, mas já era tarde. Um único
golpe à altura da cabeça foi suficiente para fazê-lo desmaiar. O padre também
me dominou com facilidade, pois eu estava fragilizado.
Fomos
arrastados para dentro da igreja e amarrados no altar, momento em que o padre
se aproximou e tirou uma cruz do pescoço, transformando-a no temível punhal.
Certamente seria o nosso fim.
A
chuva aumentava a cada momento. De repente, um raio atingiu a torre da igreja,
fazendo desequilibrar uma enorme cruz de madeira que sustentava o sino e este
começou a balançar e soar fortemente depois de anos inerte. As correntes que
lhe sustentavam não suportaram o peso e o sino veio abaixo, finalizando
justamente em cima do padre, no meio do salão destinado às missas.
Atraídos
pelas poucas badaladas do sino, populares se dirigiram à igreja, onde nos
encontraram e prestaram os primeiros socorros antes de acionar a polícia.
Conduzimos a autoridade policial aos locais onde estavam os cadáveres
escondidos pelo padre.
Com
as cautelas necessárias, acompanhamos os policiais na retirada do sino de cima
do padre, pois queríamos finalmente vê-lo preso. Qual não foi a nossa surpresa
ao ser retirado o pesado instrumento de metal: o sacerdote ali não se
encontrava, havia empreendido fuga por um túnel secreto que havia justamente no
local onde o sino caiu.
***
Algumas
semanas depois, novas diligências policiais foram efetuadas, com o propósito de
capturar o padre assassino. Somente depois deste período meu irmão me revelou
que vinha investigando o padre antes de mim e por isso sempre sabia onde me
encontrar quando eu não estava em casa. Disse que não me revelou este segredo
porque tinha medo de que viesse sofrer qualquer atentado caso saísse à busca do
religioso.
Voltamos
nossa rotina normal e, para reorganizar os trabalhos do escritório, precisamos
ficar até a meia-noite, quando finalmente resolvemos ir juntos para casa,
percorrendo o mesmo caminho de sempre.
Ao
chegarmos defronte ao local onde um dia havia a igreja, vários corvos surgiram
repentinamente, todos grasnando ao mesmo tempo. Fomos tomados por um grande desespero,
pois logo imaginamos que aquilo tinha relação com os fatos acontecidos naqueles
dias. De repente, mergulhado nas trevas e nos olhando de forma fixa, portando seu
punhal, surgiu o padre, bem na nossa frente. Desta vez estava sem capuz e as
cicatrizes eram visíveis. Um enorme corvo, com olhos vermelhos repousava no
ombro direito do sacerdote, enquanto outros milhares sobrevoavam desesperados
sobre nossas cabeças. A grande ave negra emitiu um som esquisito, que serviu
como um comando para que os outros corvos menores descessem para nos atacar e,
ao mesmo tempo o padre fez uso de seu punhal de forma rápida, neste momento
tudo ficou escuro e silencioso...
Joao Lucas
