sábado, 12 de outubro de 2013

Já era madrugada quando eu terminei a última atividade do escritório. Embora cansado, com os olhos avermelhados e com o corpo doído, iria para casa a pé, como fazia todas as noites, pois a distância entre a minha residência o meu local de trabalho era de apenas alguns quarteirões.
Durante o caminho, senti repentinamente um vento forte e frio, que trazia um cheiro diferente e jamais experimentado, vindo da única igreja da cidade.
Passava da meia-noite e as ruas estavam desertas. Apenas morcegos me faziam companhia, sobrevoando a torre da igreja, para onde me dirigi movido pela curiosidade de saber de onde emanava aquele odor fétido de cadáver putrefeito.
Apesar de preservar sua aparência original, logo percebi que se tratava de uma igreja abandonada, com pinturas velhas e sem vida, que decoravam o ambiente destinado às missas. As portas já haviam sido parcialmente devoradas por cupins e uma enorme cruz de madeira já estava quase caindo do topo da torre, sendo sustentada por um sino velho e enferrujado que há anos não se movia.
Neste momento lembrei-me de que fazia muito tempo que não assistia a uma missa. Na verdade nunca fui a uma celebração com o novo padre, talvez movido pelos comentários de que, com a chegada dele à cidade, o fluxo de fiéis diminuíra drasticamente.
Ainda curioso, cheguei à frente da igreja e, repentinamente, senti um vulto passar do meu lado esquerdo, neste instante percebi que algo estranho havia naquele ambiente, pois um desejo de morte, que fez tremular minhas pernas e suar minhas mãos tomou conta do meu corpo, mas logo desapareceu, tão rápido quanto a passagem do ser misterioso.
Desesperado e desprotegido, perguntei em voz alta quem estava naquele local, quando percebi que, mergulhado na escuridão, havia algo que parecia uma pessoa encapuzada, com uma longa bata preta de padre, um manto escuro sobre os ombros e no pescoço carregava uma cruz brilhante. Não pude contemplar seu rosto, pois estava oculto na escuridão.
Diante daquela figura enigmática recuei, momento em que vi que o padre rapidamente foi em direção ao cemitério que ficava vizinho à igreja. Sentindo um frio na espinha, dirigi-me à necrópole, percebendo que além dos morcegos, corvos barulhentos voavam em círculos sobre minha cabeça, como se quisessem me avisar alguma coisa, ou me dizer que algo de terrível estava para acontecer. Era como se me mandassem ir embora dali.
Ao chegar à porta do cemitério, um vento rasteiro vindo de um dos túmulos me trouxe novamente a sensação estranha que há pouco havia experimentado. Uma placa quase solta e fixada no enorme portão já enferrujado indicava o nome do lugar “Cemitério Cavalo Negro”, construído no período em que uma guerra civil assolou a cidade.
O lugar era triste e mórbido, repleto de túmulos os mais diversos, onde ricos e pobres eram sepultados. Alguns jazigos chamavam a atenção pela beleza.
Os corvos aumentaram de número e estavam realmente me observando a cada passo que eu avançava. De repente, ao longe vi uma fumaça branca no interior do cemitério e logo tratei de conferir do que se tratava. Percebi que a fumaça vinha de um tumulo existente no subsolo, cujo acesso se dava por uma escada protegida por um portão sem cadeado. Resolvi entrar para me certificar da origem daquela fumaça estranha quando fui atacado por um bando de corvos, que pareciam querer me impedir de descer para aquele local escuro e mal cheiroso.
Tudo de repente ficou escuro e desmaiei. Não sei por quanto tempo fiquei desacordado, mas finalmente fui despertado por meu irmão e sócio do escritório, que de alguma forma me encontrou no subsolo daquele antigo cemitério.
A exaustão a que meu corpo e minha mente haviam sido submetidos não me permitiu pronunciar uma única palavra com ele e calado fui levado para casa. Os primeiros raios solares já despontavam no horizonte quanto finalmente cheguei a casa e com uma mistura de realidade e ilusão, literalmente apaguei.
Pesadelos horríveis com o padre da cidade me fizeram acordar aos gritos. Coração acelerado, pupilas dilatadas, mãos e pés suados misturavam-se com meu desespero diante de tanto sofrimento que mais parecia uma maldição repentina. Meu irmão, que já se preparava para ir trabalhar, veio rapidamente ao meu encontro, pedindo para que eu me acalmasse e que descansasse o resto do dia, pois ele resolveria eventuais pendências no escritório.
Sozinho, em casa, resolvi tomar um banho, mas a água que caia do chuveiro parecia pedras que despencavam sobre minha cabeça. Meu corpo inteiro doía. Depois, vesti uma roupa mais leve e segui para a cozinha e fui tomar café. Em seguida resolvi ler o jornal na varanda da casa. Na capa do matutino uma matéria me chamou a atenção. Falava de assassinatos misteriosos de várias pessoas e que os crimes geralmente aconteciam na madrugada, quando a cidade dormia.
Mal terminei de ler a matéria, um corvo de olhos vermelhos posou em meu colo, o que fez meu coração disparar de forma frenética, trazendo-me a lembrança da madrugada anterior, quando centenas dessas aves, enlouquecidas, voaram em minha direção no momento em que eu estava à porta do cemitério. Em um movimento brusco com a mão direita, fiz o corvo ir embora e saiu voando em direção à igreja.
Como o sol estava brilhante e fazia um calor agradável, além de estar toda a cidade na sua rotina normal para um dia de semana, resolvi caminhar um pouco para descontrair e, talvez, esquecer tudo o que havia passado nas últimas horas.
Comprei algo para ir degustando ao longo do percurso e fui até à praça da igreja, onde fiquei observando o velho sino. Ao olhar com mais atenção, percebi novamente a presença do padre misterioso, que me fitava a distância. Tentei, em vão, ver seu rosto. Sua fisionomia estava sempre oculta. Neste instante, sem que eu percebesse, um corvo surgiu de repente e feriu minha mão com seu bico, provocando uma dor insuportável, o suficiente para que eu perdesse a atenção no padre e, enquanto eu olhei para minha mão ferida, ele simplesmente desapareceu.
Resolvi me aproximar da igreja e, através de uma fresta, passei a observar o interior do local. Percebi a pouca luminosidade, vindo de alguns candelabros. O teto em péssimas condições servia de morada de morcegos e aranhas, as estátuas ali existentes, espalhadas sobre pedestais desalinhados, estavam cobertas por panos escuros e até mesmo a enorme cruz de madeira, instalada no centro do altar, parecia despencar a qualquer momento.
No altar vi o padre, de costas para mim, não notou minha presença e ali eu fiquei por alguns minutos lhe observando. A dor na minha mão, em face do ferimento provocado pelo corvo, começou a aumentar, mas esse incômodo se tornou pequeno diante de uma sensação ruim que tomou conta do meu corpo e da minha alma repentinamente. Comecei a ficar tonto e para não cair me apoiei na porta da igreja, já pelo lado de dentro, provocando um rangido sinistro, suficiente para chamar a atenção do padre, que agora vinha em minha direção, trazendo nas mãos uma cruz que, misteriosamente, se transformava aos poucos em um punhal dourado.
Tentei me afastar, mas minhas pernas pareciam congeladas. O padre chegou bem próximo de mim e levantou o braço com o punhal, fazendo um movimento rápido de descida, momento em que senti que alguém me tocou o ombro. Olhei rapidamente para trás e constatei que era meu irmão que havia retornado do trabalho para almoçar. Sem raciocinar voltei meus olhos para o frente e, para minha surpresa, o padre novamente tinha desaparecido em questão de segundos.
Seguimos para casa e no caminho resolvi contar tudo o que estava acontecendo para meu irmão, entretanto, ele tentou me convencer de que tudo era coisa da minha imaginação e que talvez fosse estresse devido a grande quantidade de trabalho no escritório.
Depois do almoço, fui à biblioteca local. Iria fazer uma pesquisa detalhada sobre a origem daquela cidade, daquela igreja e daquele horrível cemitério. Entre as prateleiras empoeiradas, encontrei alguns livros antigos onde, em um deles, vislumbrei algo que me deixou surpreso: uma fotografia do misterioso padre. Na verdade ele não era novato na cidade. Teria feito quatro anos de seminário e há um assumido a direção da igreja. A vestimenta que usava não deixava qualquer dúvida; era a mesma com a qual se apresentou para mim nas duas oportunidades. Um texto em letras miúdas informava que o padre era órfão desde pequeno e cresceu em um orfanato, sendo portador de pequenos distúrbios mental.
Fui até o escritório e novamente tentei narrar os fatos para meu irmão, entretanto, mais uma vez fui orientado para esquecer os fatos, pois, segundo ele, nada daquilo existia de fato. Neste momento percebi que meu irmão aparentava um nervosismo indescritível, como se soubesse algo a respeito do padre. O comportamento dele me deixou intrigado.
Já em casa, vi quando meu irmão chegou para jantar. Olhando-me de soslaio, não demorou muito e foi dormir. No meu quarto, não consegui sequer fechar os olhos, pois as imagens da igreja, dos corvos, do cemitério e do padre surgiam na minha frente de uma forma bastante real.
Sem sono, fui até o porão e peguei uma lanterna. Estava decidido a ir até a igreja para esclarecer de uma vez todo esse mistério. O relógio soou meia-noite quando eu cheguei ao meu destino. Nuvens carregadas e raios que iluminavam a rua anunciavam a chegada de uma tempestade em breve. Abri a pesada porta da igreja e constatei que todos os candelabros estavam apagados. Somente o feixe de minha lanterna me permitia ver o que estava a dois metros a minha frente. Não encontrei o padre.
Atravessei todo o prédio e saí pelos fundos, desta forma chegando ao cemitério. Não fosse o uivo do vento se chocando contra um túmulo danificado, o silêncio era total. Nada de corvos, nada de morcegos. Nada de padre.
Finalmente alcancei a entrada do subsolo onde havia visto, na noite anterior, os túmulos escondidos. Neste momento os relâmpagos iluminavam o cemitério, ao mesmo tempo em que uma tempestade começou a cair e o barulho estarrecedor dos trovões deixava-me apreensivo.
Desci vagarosamente para o porão, onde vi algo assustador: uma mão, ainda suja de sangue, saía de um dos túmulos, afastando gradativamente a tampa do jazigo enquanto um cheiro de cadáver em decomposição tomava todo o ambiente. Neste momento eu só pensava em sair daquele local, subindo as escadas numa carreira frenética.
As ruas estavam tão escuras que minha lanterna não me ajudava. Os constantes relâmpagos iluminavam momentaneamente o meu percurso foi quando, bem na minha frente, surgiu o padre com sua vestimenta misteriosa. Roupas pretas, rosto indefinido e oculto pela escuridão da madrugada. Um relâmpago mais demorado me fez perceber o gume afiado do punhal que ele trazia na mão direita. Ele me fitava com um olhar gelado.
Iniciei uma correria em direção a minha casa. Uma dor insuportável na mão e o padre já no meu encalço. Quanto mais eu corria, mais parecia não sair do lugar. Quando alcancei o jardim da minha residência, senti algo sendo cravado nas minhas costas. No mesmo instante a dor que eu sentia na mão foi embora. Uma dormência inexplicável tomou conta de mim. Caí quase inconsciente no gramado.
Minha vista estava quase escurecendo quando percebi que o padre preparava uma nova investida contra mim. Eu não suportaria uma segunda lesão e, num gesto de puro reflexo, empurrei o padre com uma das pernas e novamente saí correndo, desta forma conseguindo entrar em casa.
Perdendo muito sangue e já fragilizado, observei pela janela que o padre ainda estava no jardim e exatamente naquele momento quebrou o vidro da porta e entrou na casa. Os trovões, os relâmpagos e a chuva eram as únicas testemunhas do meu sofrimento.
Antes que eu tentasse me esconder, fui surpreendido com uma forte pancada na cabeça e nesse momento perdi os sentidos. Tudo ficou escuro de repente e eu desmaiei.
Acordei em um lugar escuro e sem qualquer ventilação, com um odor de carne putrefeita. Lancei mão da minha lanterna e pude constatar mais uma cena macabra ao meu redor. Vários corpos, nos mais diversos estágios de decomposição se amontoavam próximo de mim. Logo entendi que o padre era um colecionador de cadáveres e ossos humanos. Percebi que precisava sair dali o mais rápido possível e logo comecei a avançar em um túnel, mesmo sem saber onde iria parar.
Embora não pudesse ver com clareza, senti que alguém vinha atrás de mim. Acelerei os passos, entretanto, ao olhar para trás, lá estava novamente o padre e o seu afiadíssimo punhal. Ele fez penetrar o instrumento na minha perna direita e uma dor muito forte tomou conta do meu corpo. Gritei o mais alto que pude na esperança de que alguém me socorresse. Num ato de defesa, consegui chutar o padre à altura do rosto, com uma força suficiente para fazê-lo desmaiar, momento em que seu capuz caiu e sua fisionomia foi revelada.
Maior foi minha surpresa ao contemplar seu rosto. Várias cicatrizes provocadas por instrumento cortante lhe tomavam as duas faces. Na testa, uma cruz invertida, associada ao satanismo, deixava-o ainda mais tenebroso.
Continuei em fuga e finalmente cheguei à saída do túnel, bloqueando-a com um dos bancos da igreja, que àquelas alturas começava a desmoronar pela força da chuva. Tudo estava mergulhado nas trevas, o telhado já não existia e os pingos fortes da tempestade molhavam toda a igreja. Os relâmpagos iluminavam o lugar.
Repentinamente, alguém bate na porta e grita meu nome. Imediatamente reconheci, pelo timbre, a voz do meu irmão. A muito custo alcancei a porta e falei que estava ferido. Ele arrombou uma pequena janela para me resgatar quando, de repente, atrás dele surgiu o padre com uma barra de ferro prestes a acertá-lo. Gritei desesperado para avisá-lo, mas já era tarde.  Um único golpe à altura da cabeça foi suficiente para fazê-lo desmaiar. O padre também me dominou com facilidade, pois eu estava fragilizado.
Fomos arrastados para dentro da igreja e amarrados no altar, momento em que o padre se aproximou e tirou uma cruz do pescoço, transformando-a no temível punhal. Certamente seria o nosso fim.
A chuva aumentava a cada momento. De repente, um raio atingiu a torre da igreja, fazendo desequilibrar uma enorme cruz de madeira que sustentava o sino e este começou a balançar e soar fortemente depois de anos inerte. As correntes que lhe sustentavam não suportaram o peso e o sino veio abaixo, finalizando justamente em cima do padre, no meio do salão destinado às missas.
Atraídos pelas poucas badaladas do sino, populares se dirigiram à igreja, onde nos encontraram e prestaram os primeiros socorros antes de acionar a polícia. Conduzimos a autoridade policial aos locais onde estavam os cadáveres escondidos pelo padre.
Com as cautelas necessárias, acompanhamos os policiais na retirada do sino de cima do padre, pois queríamos finalmente vê-lo preso. Qual não foi a nossa surpresa ao ser retirado o pesado instrumento de metal: o sacerdote ali não se encontrava, havia empreendido fuga por um túnel secreto que havia justamente no local onde o sino caiu.
***
Algumas semanas depois, novas diligências policiais foram efetuadas, com o propósito de capturar o padre assassino. Somente depois deste período meu irmão me revelou que vinha investigando o padre antes de mim e por isso sempre sabia onde me encontrar quando eu não estava em casa. Disse que não me revelou este segredo porque tinha medo de que viesse sofrer qualquer atentado caso saísse à busca do religioso.
Voltamos nossa rotina normal e, para reorganizar os trabalhos do escritório, precisamos ficar até a meia-noite, quando finalmente resolvemos ir juntos para casa, percorrendo o mesmo caminho de sempre.
Ao chegarmos defronte ao local onde um dia havia a igreja, vários corvos surgiram repentinamente, todos grasnando ao mesmo tempo. Fomos tomados por um grande desespero, pois logo imaginamos que aquilo tinha relação com os fatos acontecidos naqueles dias. De repente, mergulhado nas trevas e nos olhando de forma fixa, portando seu punhal, surgiu o padre, bem na nossa frente. Desta vez estava sem capuz e as cicatrizes eram visíveis. Um enorme corvo, com olhos vermelhos repousava no ombro direito do sacerdote, enquanto outros milhares sobrevoavam desesperados sobre nossas cabeças. A grande ave negra emitiu um som esquisito, que serviu como um comando para que os outros corvos menores descessem para nos atacar e, ao mesmo tempo o padre fez uso de seu punhal de forma rápida, neste momento tudo ficou escuro e silencioso...

Joao Lucas